quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Preconceito: Arcebispo diz que casamento gay abre portas para incesto e poligamia


 
 
Publicado pelo Terra
 
O casamento entre pessoas do mesmo sexo pode levar a "uma ruptura social" que abre portas para a poligamia e o incesto, afirmou nesta sexta-feira o arcebispo de Lyon na França, Philippe Barbarin, em um debate sobre a legalização das uniões entre pessoas do mesmo sexo.
 
Depois de se reunir com o ministro do Interior francês, Manuel Valls, o clérigo afirmou em entrevista à rádio RCF que, uma vez adotado o casamento homossexual, "as consequências podem ser incontáveis".
 
"Depois vão querer formar casais de três ou quatro pessoas. Depois, um dia, a proibição do incesto vai cair", afirmou Barbarin.
 
O arcebispo definiu o casamento como "uma fortaleza" para proteger "o elemento mais frágil da sociedade, ou seja, a mulher que dá à luz uma criança, e permite todas as condições para que isso ocorra da melhor maneira possível".
 
Barbarin, que no passado afirmou que o legislativo não pode substituir "Deus Pai", disse hoje que "para os cristãos, a Bíblia, que diz em sua primeira página que o casamento une um homem a uma mulher, tem mais força e verdade para atravessar as culturas e os séculos do que as decisões circunstanciais e passageiras de um Parlamento".
 
O governo francês deve apresentar o projeto de lei que autoriza as uniões homossexuais no dia 28 de outubro, embora ainda não tenha definido todos os detalhes.
 
Concretamente, ainda não se sabe se a lei vai autorizar o direito dos casais de lésbicas a terem o reconhecimento do direito de maternidade das crianças geradas por inseminação artificial.
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ministério da Malásia publica lista de ‘sintomas’ da homossexualidade



Publicado no G1

O Ministério da Educação da Malásia está recomendando uma lista de características que acredita poder ajudar os pais a identificar a homossexualidade em seus filhos.

De acordo com o “Global Post”, a lista foi distribuída aos participantes de um seminário sob o tema “Como os pais devem abordar a questão dos LGBTs”, e publicada nesta quinta-feira (13) pelo diário chinês “Sin Chew Daily”.
 
“Jovens são facilmente influenciados por sites e blogs ligados aos grupos LGBT. Isto pode facilmente se espalhar entre os amigos. Estamos preocupados que isto aconteça durante o período escolar”, discursou o ministro da Educação, Mohd Puad Zarkashi, para cerca de 1,5 mil professores e pais no evento.
 
Entre os “sintomas” listados, estão “ter um corpo musculoso e gostar de exibí-lo usando camisetas com gola V e sem mangas”, para os meninos, e “gostar de sair, fazer refeições e dormir na companhia de outras mulheres” para as meninas (veja a lista completa abaixo).
 
O “guia” afirma ainda que “uma vez que a criança apresente tais sintomas, [os pais] devem dar atenção imediata”.

A Malásia, um país predominantemente muçulmano conservador, mantém leis que criminalizam a homossexualidade e permitem ao Estado punir gays com até 20 anos de prisão.
 
Este ano, o governo disse que personagens gays podem ser representados em filmes e na televisão, desde que, ao final da história, o personagem se torne heterossexual ou demonstre arrependimento por seus modos homossexuais.
 
Caraterísticas
 
Veja a seguir a lista de “sintomas” atribuídos pelo ministério malasiano à homossexualidade em meninos e meninas.
 
"Sintomas" de gays:
  • Ter um corpo musculoso e gostar de exibí-lo usando camisas com gola V e sem mangas; Preferir roupas justas e de clores claras;
  • Sentir atração por homens; e
  • Gostar de usar bolsas grandes, parecidas com as usadas por mulheres, ao sair.

"Sintomas" de lésbicas:
  • Atração por mulheres;
  • Se distanciar de outras mulheres que não sejam suas companhias femininas;
  • Gostar de sair, fazer refeições e dormir na companhia de mulheres; e
  • Não ter afeto por homens."

Gays iraquianos viram alvos de milícias e soldados no Iraque pós-Saddam



 
Publicado pelo G1
 
Autoridades do Iraque têm feito uma "caça às bruxas" contra os homossexuais, com perseguição sistemática e mortal a homens e mulheres, revela uma reportagem investigativa da BBC.
 
Ativistas dizem que centenas de homossexuais foram mortos nos últimos anos, enquanto o governo, que conta com apoio ocidental, tem ignorado o assunto. Para as Nações Unidas, a negligência quanto à violência torna o Estado iraquiano um dos responsáveis pelos crimes.
 
A investigação da BBC mostra que no Iraque pós-Saddam Hussein ser homossexual - ou mesmo parecer homossexual - pode significar uma sentença de morte no país.
 
Em alguns casos, homossexuais foram mortos pelos próprios familiares, nas chamadas 'mortes pela honra', ou pela ação de milícias. Mas a perseguição também parece ocorrer sob os mandos de forças de segurança oficiais - ainda que o governo se recuse a admiti-lo.
 
Dezessete homossexuais entrevistados pela reportagem se disseram perseguidos individualmente, e todos dizem ter amigos ou parceiros mortos.
 
Ainda que o governo diga que desarticulou milícias que fazem esse tipo de perseguição, um ex-policial, que conversou com a BBC em condição de anonimato, disse ter abandonado a corporação depois de ter recebido ordens diretas para prender dois homossexuais. Um deles foi morto na cidade onde era "procurado".
 
"Durante a ocupação americana, estávamos muito ocupados. Agora, com tempo livre, a polícia passou a perseguir gays", disse o ex-policial.
 
Abrigo
 
 
Com isso, a comunidade gay do Iraque fica cada vez mais escondida e assustada. Uma vez que um homossexual entra na 'lista de procurados', ele ou ela não tem para onde escapar.
 
Muitos relatam buscas oficiais em suas casas, além de casos de estupro. Outros temem ser identificados nas dezenas de postos de checagem que têm como objetivo garantir a segurança de Bagdá. "Não tenho liberdade. Não posso viver a minha vida", disse um deles à BBC.
 
Há apenas um abrigo para homossexuais em Bagdá, com capacidade para três pessoas. Outros abrigos foram alvos de ofensivas e fechados pelo governo. Segundo um relatório de 2009 da ONG Human Rights Watch, é possível que centenas de homossexuais homens tenham sido mortos desde a invasão americana, em 2003.
 
Mas o Ministério de Direitos Humanos do Iraque afirma não poder ajudar os homossexuais, porque o grupo não é considerado uma minoria sob os olhos do governo. Alega, porém, que denúncias de morte foram encaminhadas ao Ministério do Interior.
 
O premiê iraquiano, Nuri al-Maliki, que tem comando direto sobre o Ministério do Interior, não respondeu aos pedidos de entrevista. Seu porta-voz, no entanto, disse à BBC que não existe nenhuma perseguição sistemática a homossexuais e que estes devem 'viver suas vidas normalmente'.
 
Conservadorismo
 
Ao mesmo tempo, no distrito de Cidade Sadr, em Bagdá, um clérigo islâmico disse à BBC que o "terceiro sexo" - como o homossexualismo é chamado - é "totalmente rejeitado pelo islã". Ainda assim, a cultura religiosa e conservadora do Iraque não explica por si só a perseguição aos gays, dizem analistas.
 
No Líbano, por exemplo, o grupo radical Hezbollah é razoavelmente tolerante ao homossexualismo. No Irã, onde a prática homossexual é ilegal e comumente punida, a cena "underground" gay também é tolerada. Até na ultraconservadora Arábia Saudita a perseguição não parece chegar nos níveis do Iraque.
 
Durante o governo de Saddam (1979-2003), homossexuais desfrutaram de algum grau de liberdade e segurança e, após a invasão americana, grupos liberais esperavam que essa liberdade aumentasse.
 
Mas forças conservadoras islâmicas que ganharam o poder se mostraram resistentes a aceitar valores supostamente ocidentais, incluindo o homossexualismo.

Entrevista de jogador homossexual comove Alemanha, e clubes entram sem patrocínio por campanha social


 
Publicado pelo ESPN
 
Independentemente do que ocorra em seus nove jogos, a terceira rodada do Campeonato Alemão 2012/2013 ficará marcada na história do futebol do país por um motivo além do esporte. A Bundesliga organizou uma campanha a favor da livre opção sexual, sendo que as 18 equipes participantes da competição não entrarão em campo com os seus respectivos principais patrocínios na camisa. No lugar deles, ficará um logo com o nome da iniciativa: “Geh Deinen Weg” (Siga em seu próprio caminho, em alemão).
 
A campanha se deu depois de uma entrevista concedida por um jogador do Campeonato Alemão à revista Fluter. Homossexual, o atleta não revelou sua identidade por temer possíveis represálias. “O preço que pago por viver meu sonho como um jogador da Bundesliga é alto. Eu tenho que ser um ator todo dia e entrar em autonegação”, declarou.
 
Em razão do episódio, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, declarou seu apoio aos jogadores homossexuais. “Você não precisa ter medo. Eu sou da opinião que todo mundo que tem uma força e coragem (de assumir) deveria saber que nós vivemos em um estado no qual ele essencialmente não tem que temer. Essa é minha declaração política”.
 
Vale lembrar que o ministro das Relações Exteriores da Alemanha e um dos, Guido Westerwelle, é homossexual assumido. O político é um dos principais do governo de Merkel, que apadrinhou a iniciativa “Geh Deinen Weg”.
 
Quem também seguiu a mesma linha foi o presidente do Bayern de Munique, Uli Hoeness. “Esporte, particularmente o futebol, pode ser o motor da integração. Mais cedo ou mais tarde algum jogador será obrigado a assumirem a homossexualidade. Eu não posso imaginar que um jogador homossexual teria problemas com os nossos torcedores. O Bayern está pronto. A sociedade como um todo está mais avançada nesta questão”, disse.
 
A campanha foi iniciada na sexta-feira na partida de abertura da terceira rodada do Campeonato Alemão entre Augsburg e Wolfsburg, que entraram com o logo da campanha. A medida se repetirá nas demais partidas de sábado e domingo. Merkel, inclusive, estará presente no Signal Iduna Park, estádio do Borussia Dortmund, para acompanhar a partida do time aurinegro contra o Bayer Leverkusen.
 

Técnico do Bayern diz que teme por atletas que assumirem homossexualidade


 
Publicado pelo Terra
 
O técnico do Bayern de Munique, Jupp Heynckes declarou na sexta-feira que o fato de jogadores "saírem do armário" para revelar sua homossexualidade era um "assunto muito delicado, que tem que ser levado a sério", mostrando mais cautela do que a chanceler alemã Angela Merkel na véspera.
 
"Se eles querem sair do armário, será respeitado, mas estou com receio de que a sociedade, o esporte e uma pequena parte dos torcedores não tolerem isso ainda", afirmou o treinador. "Se um jogador quiser se abrir comigo sobre esse assunto, tratarei isso de forma muito discreta, sou muito tolerante", completou Heynckes, na véspera da partida entre o Bayern e o Mainz pelo Campeonato Alemão.
 
Na quinta-feira, a chanceler Angela Merkel chegou a incentivar os jogadores homossexuais a revelarem sem medo e publicamente sua opção sexual, durante um evento sobre integração realizado em Berlim.
 
"Acredito que aqueles que têm força e coragem (...) de assumir sua homossexualidade precisam saber que vivem num país em que não têm nada a temer", disse Merkel.
 
De acordo com o presidente do Bayern, Uli Hoeness, presente no mesmo evento, trata-se apenas de uma questão de tempo antes que um primeiro jogador fale abertamente sobre o assunto. O dirigente alertou sobre a necessidade de "proteger ao máximo" todos os jogadores que revelarem sua homossexualidade.
 
Este debate ganhou mais força recentemente na Alemanha depois de um jogador homossexual de um time da primeira divisão ter concedido entrevista a uma revista alemão sob a condição de manter o anonimato.

Médico perde lincença profissional ao tentar "curar" homossexual com castração química


 
 
Publicado no DN de Portugal
 
Austrália - Mark Craddock perdeu a sua licença para exercer medicina depois de, em 2008, ter prescrito medicamentos para castrar quimicamente um jovem e o "curar" da sua homossexualidade. Ambos pertenciam ao grupo religioso Exclusive Brethren.
 
O médico receitou ao paciente acetato de ciproterona, uma substância utilizada em homens adultos para o controle da libido em casos severos de hipersexualidade ou desvios sexuais ou no tratamento do carcinoma de próstata, segundo o jornal espanhol 'ABC'.
 
Numa carta às autoridades de saúde, o paciente, cuja identidade não é conhecida, afirmou que foi um dos líderes religiosos que lhe aconselhou Craddock e que sugeriu ao médico a medicação. A consulta não durou mais que dez minutos.
 
Craddock admitiu às autoridades que não teve conhecimento do historico médico do paciente, não o submeteu a qualquer exame físico nem lhe falou dos efeitos secundários da medicação, que incluem impotência sexual. O médico, de 75 anos, foi condenado pela sua conduta não profissional e proibido de praticar a profissão.
 
O grupo religioso Exclusive Brethren é uma vertente da igreja evangélica que se subdividiu e se distingue da Christian Brethren e Open Brethen. Os ensinamentos da Bíblia e a unidade familiar devem levados de forma rígida e a socialização com outras religiões não é bem vista.

domingo, 16 de setembro de 2012

Pesquisa sobre jornalismo e homofobia revela que movimento organizado e mídia não ‘conversam’


 
Publicado na UFMG
 
Eventos como as paradas de orgulho gay atraem cobertura de jornais e emissoras de TV, mas essa cobertura se concentra em aspectos como o exotismo das imagens e personagens e até o rendimento do evento para a economia da cidade que o abriga.
 
Os movimentos sociais que promovem os eventos não são ouvidos. “Parece que há grande dificuldade de esses dois agentes sociais conversarem. Há um silêncio, uma certa indiferença mútua”, afirma o professor Bruno Souza Leal, do Departamento de Comunicação Social da Fafich.
 
Ao lado do colega de departamento Carlos Alberto de Carvalho, ele lança neste sábado, 15, o livro Jornalismo e homofobia no Brasil: mapeamento e reflexões (editora Intermeios), que leva a público pesquisa realizada entre 2008 e 2010. Nesta entrevista, Bruno Leal conta o que a pesquisa revelou sobre as relações de gênero e afetivo-sexuais e sobre o próprio jornalismo. “Como é lugar de tensão da vida social, a homofobia diz muito dos modos de ser do jornalismo”, afirma o pesquisador.
 
Por que é importante saber sobre essa relação entre ao jornalismo e a homofobia?
 
A homofobia e as relações de gênero e as afetivo-sexuais são lugar de tensão da vida social brasileira, fazem parte de diversas realidades, das configurações identitárias, ou seja, são um campo delicado, difícil. E, consequentemente, desafiam os modos de ser do jornalismo. A partir das relações de homofobia, apreendemos aspectos ou dimensões do fazer midiático, dos modos de ser do jornalismo, que numa visada mais tradicional não conseguiríamos vislumbrar. É um bom lugar para se problematizar o jornalismo. No caso da homofobia, não trabalhamos com essa noção apenas como aversão aos homossexuais, que é o entendimento mais cotidiano da expressão, mas como um componente das relações de gênero. Uma pessoa heterossexual ou heteroafetiva é também sujeita à homofobia, como o é uma pessoa lésbica, travesti, bissexual, etc., porque a homofobia se articula às definições do que é certo e errado nas relações de gênero e afetivo-sexuais. Refletir sobre o tema é entender esse problema na vida social. A gente vê diversos sintomas dele no cotidiano. Não só as pautas político-sociais vinculadas à população LGBT (união civil, demanda por adoção etc.), como também às mulheres (direito ao aborto, à vida sexual), por exemplo. A homofobia perpassa todas essas relações. Então, perceber as relações entre homofobia e jornalismo é entender o modo como essas relações são configuradas.
 
E de modo geral como o jornalismo tem tratado a homofobia?
 
Não há um padrão. Um modo geral seria uma incoerência. Há enormes diferenças mesmo internamente nos veículos. Isso sustenta nossa percepção de que a homofobia é um campo problemático. Veículos e notícias se posicionam a cada hora de um jeito. Muitas vezes numa mesma edição de um jornal impresso há um tipo de perspectiva no caderno de cultura e outro no caderno de cotidiano. É quase como se o jornal não se lesse. Ou entre uma edição e outra do Jornal Nacional, e até entre blocos distintos. Às vezes imagens não estão muito coerentes com o texto verbal. Mas é possível falar em modo geral quando lembro que em 2007, quando começamos os testes metodológicos, praticamente não encontrávamos a palavra homofobia. Quando o termo aparece e ganha corpo, o noticiário aumenta. As contradições não diminuem, mas há uma tensão cada vez maior quanto às relações LGBT e afetivo-sexuais e de gênero no cotidiano. O aumento não implica abordagem única, pelo contrário, ela é cada vez mais contraditória.
 
Pode-se mesmo imaginar que o surgimento do termo homofobia teria algum efeito...
 
O surgimento da palavra homofobia é sintoma e causa. É sintoma porque reflete uma pressão da vida social, do tipo “temos um problema e ele tem que ter um nome”. Com esse nome, se torna mais fácil produzir histórias, apreender certas relações. E é causa porque vira um mote a partir do qual é possível falar.
 
Que relações mais instigaram vocês?
 
Nós queríamos olhar a homofobia, mas, dentro disso, as relações LGBT, que é o campo mais visível. É onde a homofobia ganha uma conformação mais óbvia, ao mesmo tempo mais fácil de ser compreendida e mais complexa. As relações LGBT foram o que mais nos instigou. Em parte porque é uma pauta. Nesse período aconteceu o julgamento no STF sobre as uniões homoafetivas, as tentativas de lei de criminalização da homofobia, havia um movimento político, estético, social, cultural. E ao longo da cobertura, alguns casos nos chamaram a atenção pela sua força, pela sua peculiaridade. Um dos mais significativos foi o caso do Ronaldo [ex-jogador da seleção de futebol] com as travestis. Outro foi o dos sargentos do Exército que saíram do armário. No caso do Ronaldo, houve claramente uma condenação moral às travestis. Elas não tiveram voz, foram consideradas prostitutas de quinta categoria. Em momento algum, a atitude sexual do Ronaldo foi questionada, a não ser à meia-boca, informalmente. Preservaram o grande ídolo do esporte. Nunca foi feita a pergunta: por que um homem hétero vai querer transar com travestis? Por que um homem hétero, rico, que namorou várias mulheres bonitas se interessa em transar com travestis? Essa pergunta, ou a falta dela, diz claramente das tensões em torno do assunto. Ela diz de uma conformação de masculinidade, do que é possível e não é de ser dito, lugares de sombra e de luz na vida social.
 
E no caso dos sargentos, o que mais chamou a atenção?
 
Esse caso já nasceu midiático. O Ronaldo foi um caso que a mídia pegou – e sofreu para dar conta dele. Registrou-se o fato, e aí tiveram que se virar pra lidar com a situação. No outro caso, foi uma ação deliberada da revista Época, que propôs a polêmica. Não só achou os dois sargentos, como chamou-os para dar entrevista, e colocou na capa. Um conceito básico do jornalismo é o de que existem os fatos e o jornalista narra. No caso dos sargentos, isso caiu por terra, porque o próprio acontecimento social foi midiaticamente produzido. O fato foi a própria entrevista, e a partir dele todos os outros se desdobraram. Tudo que veio depois foi repercussão desse acontecimento que nasceu midiático.
 
Que outros dados aparecem com destaque?
 
Achávamos que as questões de gênero e de sexualidade seriam basicamente tratadas a partir do aspecto político ou da vida íntima dos famosos. Mas isso foi em parte contradito pela pesquisa. Há uma grande força dos casos anônimos, pequenas situações do cotidiano que pudemos capturar. Claro que as celebridades são o grande foco, a maioria das notícias sobre homofobia, gênero, relações LGBT se deu em torno de produtos culturais e de pessoas famosas. Esse é um dado significativo. Não foi a agenda política o grande tema, foi a agenda comportamental. Os segundos cadernos trouxeram muito mais questões que os cadernos de política. E outro aspecto foi a presença dos anônimos. Aí apareceram duas coisas. Primeiro, algumas dessas pessoas foram transformadas em celebridades, como os sargentos. Mas, na grande maioria das vezes, os anônimos servem à intenção do jornal. Anônimos são protagonistas das matérias, mas não de acontecimentos do cotidiano deles. Eles foram chamados para uma ação midiática. Outro dado que surpreendeu: alguns movimentos fazem parte da agenda política LGBT, como o Dia Mundial de Combate à Homofobia, as paradas de Orgulho LGBT, o Dia Internacional de Combate à Aids. E a gente imaginava que essas datas teriam grande cobertura, e que o movimento social organizado teria algum tipo de penetração no jornalismo. Não foi assim. As paradas de orgulho LGBT são organizadas por movimentos sociais, e as matérias dos veículos em geral praticamente não mencionam isso. Os grandes agentes são celebridades, a própria mídia, os produtos culturais, o Executivo. Até mesmo as universidades, os especialistas, têm mais protagonismo que o movimento social. E o acontecimento programado não é gerador de cobertura, e isso nos surpreendeu.
 
Isso vale da mesma forma para as paradas?
 
Elas são cobertas pelos veículos, mas os temas foram muito pouco problematizados. O foco está na faceta divertida, na presença de famílias e até em aspectos econômicos. A Folha fez uma matéria sobre quanto a parada rendia, em termos econômicos, para São Paulo. As paradas do Rio, São Paulo e Belo Horizonte tinham um tema, mas ele não foi tratado. O Dia Mundial de Combate à Homofobia praticamente não foi narrado. Quando o acontecimento programado garante a cobertura, não garante a qualidade da informação. Parece que há grande dificuldade desses dois agentes sociais conversarem. Há uma resistência dos agentes midiáticos em darem voz ou conversarem com os movimentos organizados, e talvez também vice-versa. É um silêncio, uma certa indiferença.
 
Como o jornalismo é revelado pela pesquisa?
 
Quando a gente fala de jornalismo, quase sempre pensa na notícia, na relação da notícia com o acontecimento. Mas tem um elemento que atravessa todo o processo, que é o veículo, a mídia. Os veículos não só definem o que é pauta, como ela vai ser feita, e quem vai ser agente dessa pauta. E essa mídia não é simplesmente o suporte, ela é um agente social. Por exemplo, a Folha e O Globo se ancoram num discurso de direitos humanos. Mas O Globo, até pelo caráter mais descontraído, é um jornal muito mais comprometido, de modo geral, muito mais aberto inclusive às contradições das questões de homofobia que a Folha. Há claramente uma ação do Globo nessa direção, inclusive propondo e produzindo pautas, absorvendo relações, o que a Folha faz com um pouco mais de parcimônia. A Folha deu uma matéria em 2007 sobre a primeira pessoa condenada com base na lei contra a homofobia de São Paulo. A vítima foi chamada de homossexual uma vez, e no restante da matéria foi chamada de empresário. Esse movimento de esquecer que o personagem era homossexual e lembrar que ele era empresário é a cara da Folha. Isso diz da notícia, do repórter, mas muito intensamente sobre o jornal: com quem ela quer falar, como ela lê o mundo e como traduz os acontecimentos para o que ela imagina que é o seu leitor.
 
Como foi a pesquisa?
 
Tivemos uma fase de pré-teste em 2007, em que fizemos considerações metodológicas, laboratórios para acertar a coleta, E fizemos a coleta de fevereiro a agosto dos anos de 2008 a 2010. E não cobrimos o ano inteiro, porque teríamos que entregar um relatório, para o Ministério da Saúde, com um ano de ação. Então, tivemos que parar em agosto. E mantivemos o período nos anos seguintes para não desvirtuar a série histórica. Esse período foi produtivo, porque pegamos após o carnaval, que sempre gera uma cobertura peculiar. E esse período compreendia o dia mundial de combate à homofobia e as paradas de orgulho LGBT de São Pulo, Rio e Belo Horizonte. Juntamos muita coisa, temos um banco de dados de mais de cinco mil itens. São muitas variáveis e elaboramos uma ficha de análise. Todo o material está indexado, e milhares de outros cruzamentos poderão ser feitos, em novas pesquisas.
 
É a primeira pesquisa desse gênero no Brasil?
 
Que a gente saiba, sim. A primeira que faz esse tipo de coleta exaustiva. Foram todos os dias, todas as edições de diversos jornais e emissoras, e com alto nível de sistematicidade. O que às vezes a gente encontra são estudos de casos específicos, mas uma pesquisa assim, mais larga, duradoura e compreensiva, que gente saiba é a primeira.
 
O tema criou dificuldades para estruturar a metodologia?
 
O desafio metodológico foi muito grande. A base dela é o que chamamos de análise quantitativa. Trabalhamos com indexadores, palavras que se repetiriam. Mas isso gera um problema, já que estamos lidando com televisão e com imagem fotográfica. E nem tudo que está dito nos jornais impressos e de TV está dito em palavras, muitas vezes está dito em imagens. Além disso, nem tudo que é dito sobre homofobia ou sobre relações afetivo-sexuais é dito explicitamente. Há implicitude, silêncio, jogo de sentido.